Redomas contemporâneas
Eu me lembro de ouvir alguma coisa na época da faculdade sobre as pessoas se tornarem muito mais agressivas ao volante que são fora dele. Como se elas se sentissem, além de mais “corajosas” (e eu coloco as aspas porque, como neste caso, covardia é muito confundida com coragem), de certa forma, intocáveis. Para quem é da minha geração, vocês se lembram da transformação do Pateta no trânsito? Então, é mais ou menos isso.
O mesmo movimento vem crescendo vertiginosamente na internet. As pessoas se sentem protegidas e autorizadas a proferir todo tipo de ofensa, agressão e grosseria. Isso não é de hoje, claro. Vocês se recordam dos comentários horrorosos que a gente lia em matéria de jornal online? Contudo, a coisa vem piorando. Vem piorando com a polarização, com a intolerância, com o distanciamento físico que experimentamos, aliado ao enfraquecimento constante do senso de comunidade.
Não precisa ir longe. Eu vejo pessoas conhecidas, pessoas aparentemente educadas, ponderadas e, muitas vezes, agradáveis na vida real, vociferarem todo tipo de coisa pela internet. Coisa de fazer a gente até se questionar se aquela pessoa que conhecemos pessoalmente existe ou ela é, na realidade, quem passa o dia distribuindo agressões pelas redes sociais. Considerando que passamos uma boa parte das nossas vidas em meio virtual (e isso infelizmente se torna, cada dia mais, uma verdade), será que a persona que assumimos em uma conta de Instagram, de Tik Tok, ou mesmo (para os que ainda frequentam aquele ambiente meio insalubre) de Facebook não é (ou passou a ser) quem nós realmente somos? Eu, honestamente, não sei.
O que eu tenho certeza é de que as pessoas perderam o bom senso na internet. Você, pessoalmente, avaliaria de forma negativa a aparência de alguém que sequer te pediu tal avaliação? Diria palavras de baixo calão a uma pessoa que externou uma opinião diferente da sua (ainda que fosse, para você, uma opinião detestável)? Pessoa esta que talvez nem estivesse falando com você?
Eu corrijo minha filha quando ela usa palavras como “feio” e “chato” para falar de pessoas. Mas eu vejo uma porção de gente falando coisas muito piores em redes sociais. Pessoas que, se não nos esbarrássemos virtualmente por aí, eu defenderia veementemente, dizendo que jamais seriam capazes de usar as palavras que usam.
Não está na hora de nós, adultos, avaliarmos nosso comportamento na internet (e no trânsito! O Pateta dirigindo ainda me assusta) ao mesmo tempo em que corrigimos nossas crianças para que não usem palavrinhas muito mais amenas que as que saímos por aí distribuindo em perfis de pessoas que sequer conhecemos?
Não está, gente. Passou da hora. Para além do fato de que estamos passando MUITO tempo na internet, é preciso falar sobre como estamos passando um tempo MUITO sem qualidade na internet, operando uma transformação de personalidade extremamente negativa.
Antes de redigir um comentário grosseiro (ou mesmo indelicado), isso para não sair do campo dos comentários não criminosos, reflitamos: faríamos isso se não estivéssemos com a sensação de proteção proporcionada pela redoma imaginária (ou nem tão imaginária) da internet?
É preciso educar quem acabou de chegar, com certeza, mas (e urgentemente) também quem se perdeu pelo caminho.


Estamos vivendo an era das “trevas” da educação. Voltando à idade média. Daqui a pouco veremos mulheres “bruxas” queimadas vivas em praça pública?
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