Os pontos e as planícies
Ando reflexiva sobre o paradoxo (ou seria contradição?) sentido da vida vs capitalismo.
Explico: não acho que ninguém esteja no mundo para trabalhar.
Mas é o que a gente passa a maior parte do tempo fazendo.
A vida é uma viagem tão profunda…E a gente vive nadando no raso.
Não falo nem sobre o sentido religioso da coisa, a reflexão é mais filosófica mesmo.
Já pensaram que passamos muitas horas por dia fazendo algo (por mais prazeroso que seja) para receber em troca o direito de continuar (sobre)vivendo (mediante a aquisição de certos bens e serviços)?
Claro que já, eu sei. Não é preciso pensar demais para chegar a essa questão.
É que as coisas mas óbvias são as mais chocantes.
Eu sei o que me faz feliz. Eu sei exatamente quando me bate forte o sentimento de “a vida é boa” ou, nas palavras de Fernanda Torres, quando “a vida presta”.
Se imaginasse estes momentos como parte de um grande quadro, certamente pareceriam pequenos pontos reluzentes em meio a uma planície imensa de momentos de sobrevivência. Preocupações com trabalho, contas, dores de cabeça de rotina.
Ainda assim, são os pequenos-grandes momentos reluzentes que me fazem responder positivamente à pergunta “você é feliz?”.
Aqui eu devo pontuar que falo sobre minha própria experiência, em um lugar de relativo privilégio, já que todos sabemos a realidade de grande parte da população (podemos falar da população brasileira, mas cabe ampliar para população mundial). E, ainda assim, estou gastando tempo de vida, a coisa mais preciosa que tenho, fazendo coisas não reluzentes. Coisas-planície, imensas e tediosas. Coisas que precisam ser feitas no mundo capitalista. Ou (caso você não seja alguém extremamente beneficiado pelo sistema capitalista) seus momentos reluzentes perderão o brilho. Porque não existe, nessa lógica, vida boa sem dinheiro. E por dinheiro aqui, entenda-se o suficiente para adquirir o básico, um mínimo existencial.
Tudo isso é péssimo. E é tão autoevidente que parece bobo dizer.
Mas precisa ser dito. Por que mascaramos o grande desperdício que é viver desperdiçando tempo de vida?
Porque não somos nós que decidimos isso. Porque somos só uma peça muito pequena nessa roda que gira tão facilmente sem nós. Portanto, não acredito que exista alguma solução nem a longo prazo para nada disso.
Eu só fico me perguntando se esses “melhores momentos” seriam mais
reluzentes se as coisas-planície fossem um pouco menores no nosso quadro da vida...


